fev 16, 2012
PAIÊ Ê Ê!
Conta-se… Juca, garotão de férias passeava lá fora quando, faltando-lhe grana, enviou mensagem urgente: “ Pai, manda-me dinheiro. Ass. Juca”
Na volta, ouviu-se o diálogo:
- Pô, pai, não recebi nada, passei um sufoco…
- Claro, seu mal- educado, não tens respeito? Isso lá é maneira de cobrar de seu pai, manda dinheiro? Desaforo, ora essa!
- Pai, telegrama grande é caro… Eu quis dizer: “Paizinho, teu filho querido está na pior… Dá para me mandares, por favor, um dinheirinho? Beijo grande e saudoso do Juca”.
Ora, por oportuno, lembro-me que há grande confusão na literatura e nas práticas gerenciais, misturando-se Consultoria com Coaching, Mentoring com Aconselhamento e tudo isso com Terapia de Apoio psicológico e/ou comportamental. No entanto, seja qual for nossa preferência e orientação metodológica todas têm em comum o mesmo instrumento de intervenção: a “Entrevista”. Essa, em geral se desenvolvendo usualmente face a face, telefone ou Internet, sempre duas pessoas- Consultor e Cliente- em diálogo intensivo e informativo- parece, às vezes, até pai e filho- com um equipamento no meio.
Com efeito, em toda entrevista, imperativo é se entender que há duas coisas a se observar: O Conteúdo ( O que se diz) e o Processo (Como se diz). No exemplo acima, o “conteúdo “envolvia dinheiro e o “processo”- tão mal recebido pelo pai- foi a maneira como o pedido foi feito.
De fato, na entrevista deve o Consultor ficar atento para esses dois aspectos, observando tanto os dados e informações coletadas quanto a emoção envolvida, a “maneira” como tudo é relatado; não só o que acontece, mas, também, o que o interlocutor finalmente “pensa e sente” de tudo isso.
Também são importantes, em toda entrevista, os seguintes aspectos e posturas do Consultor:
a) Adotar uma atitude de “aceitação positiva. Afinal, você não foi contratado para “julgar” ou até “punir” alguém;
b) Aliás, por que culpados? Nas organizações, os erros são geralmente “sistêmicos” e envolvem toda a organização, refletindo-se em um setor o que há de errado em outro, sem maiores culpados do que o conjunto todo;
c) Colocar-se nos sapatos do outro… É a tal da “empatia”, que não se sabe bem o que é, embora saibamos muito bem quando ela realmente ocorre;
d) Preparar-se para o fenômeno da “transferência” negativa. Há uma grande probabilidade do interlocutor- cliente colocar o Consultor na posição idealizada- um tanto desfavorável-, de Superior, Pai, Chefe, Amigo ou não, Líder opressor, “Dono da verdade” ou até Sabichão e tudo isso, com certeza, vai dificultar o diálogo;
e) Saber provocar respostas evitando conduzi-las ao que V. espera do Cliente, fazendo sempre perguntas “abertas”, que não induzam a um simples “sim” ou “não”. Assim, ao invés de “As vendas estão indo bem?”, melhor é perguntar “O que V. acha de positivo e/ou negativo no atual sistema de Marketing/Vendas da empresa?”
f) Ouvir, ouvir sempre, com paciência e atenção, sem ideias preconcebidas. Com muita frequência, o Cliente quer mesmo é fazer sua “catarse”, já que não tem com quem comentar e extravasar o que realmente pensa e sente, e nem há sócios, chefes, clientes, empregados e família com quem desabafar. Resta o Consultor…
g) Finalmente, se quiser, o Consultor pode até adotar o modelo S.O.A.R., por prático. De tal modo, inicie sua entrevista pelo “ S “ – Situação Atual, seguindo-se o “O”-os Objetivos que deveriam ser atingidos-, o “A” da Ações que foram, estão ou serão executadas e encerrando-se o processo com o “R” da análise e avaliação dos Resultados alcançados.
Embora, antes de mais nada e mais importante do que o SOAR talvez seja mesmo ouvir aquela vozinha teimosa apelando meio que escondida : Paiêêê, paiêêê !
Paulo Jacobsen, Consultor e professor
( do material do Curso de Desenvolvimento de Consultores)
publicado originalmente no Ouvimos por aí nº 17, de fevereiro de 2012


Gostei muito desse artigo!
Sempre é bom relembrar a importância de saber ouvir, especialmente, saber fazer as perguntas certas! Parabéns!
Especial o artigo! Socrates, o filósofo só fazia isso: Perguntava, perguntava…e ficava ouvindo! Com isso, deixou-nos- há mais de 20 séculos- um sistema inestimável de pesquisa do conhecimento: O chamado “Método Socrático” que está aí até hoje…
Parabéns pelo artigo! Isabel Valente